Histórias Incríveis
Sobre “101 Coisas Que Todo Ser Humano Faz

Por que seres humanos tão diferentes fazem coisas tão parecidas?

31 de agosto de 2026 7 min de leitura

Pequenas ações, grandes verdades: a nossa humanidade em comum.

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Do riso ao ciúme, das histórias que contamos às pequenas mentiras sociais, existem comportamentos que atravessam culturas e revelam algo fascinante sobre o que significa ser humano.

Imagine duas pessoas que jamais se encontraram.

Uma vive em uma metrópole brasileira, acorda olhando o celular, enfrenta o trânsito, toma café às pressas e passa boa parte do dia entre mensagens, reuniões e compromissos. A outra vive a milhares de quilômetros dali, fala outro idioma, cresceu cercada por costumes completamente diferentes, come outros alimentos e talvez tenha uma ideia bastante distinta sobre família, trabalho, religião, sucesso ou felicidade.

Elas provavelmente discordariam sobre muitas coisas. Mas há uma boa chance de que ambas já tenham rido até perder o fôlego. Já tenham sentido ciúme. Já tenham reclamado de alguma coisa. Já tenham contado uma história acrescentando um pequeno detalhe para torná-la melhor. Já tenham cantado mesmo sem saber cantar. Já tenham comemorado alguma conquista. Já tenham sentido vergonha. Já tenham criado um apelido para alguém. E, provavelmente, em algum momento, já disseram que estava “tudo bem” quando não estava exatamente tudo bem.

Quanto mais diferentes parecemos, mais intrigante se torna perceber quantas coisas continuamos fazendo de maneira surpreendentemente parecida. Talvez existam mais códigos compartilhados entre nós do que imaginamos. Somos diferentes. Felizmente.

A diversidade humana é extraordinária. Criamos milhares de idiomas, diferentes maneiras de vestir, cozinhar, cumprimentar, amar, educar os filhos, lidar com a morte, celebrar casamentos, organizar sociedades e compreender o mundo. Até comportamentos aparentemente simples podem adquirir significados completamente diferentes dependendo de onde estamos. Olhar diretamente nos olhos pode demonstrar confiança em determinada situação e ser interpretado como inadequado em outra. O silêncio pode representar constrangimento, respeito, reflexão ou reprovação. Uma demonstração pública de afeto perfeitamente natural para determinado grupo pode causar desconforto em outro.

Mas existe uma diferença importante entre a maneira como fazemos algo e a razão pela qual fazemos. É aí que a coisa fica interessante. As formas culturais variam enormemente, mas algumas necessidades aparecem repetidamente: pertencer, comunicar, proteger, competir, cooperar, seduzir, ensinar, criar vínculos, conquistar reconhecimento, aliviar tensões e encontrar significado para aquilo que vivemos. Talvez seja por isso que comportamentos tão familiares continuem aparecendo em lugares tão diferentes.

Pense no riso. Normalmente imaginamos que rimos porque alguma coisa é engraçada. Só que basta observar um grupo conversando por alguns minutos para perceber que não é tão simples. Rimos quando alguém conta uma piada, claro. Mas também rimos quando estamos constrangidos. Rimos para demonstrar simpatia. Rimos quando encontramos alguém de quem gostamos. Rimos para aliviar uma situação tensa. Às vezes rimos simplesmente porque todo mundo começou a rir. E existe ainda aquela risada socialmente estratégica diante da piada absolutamente sem graça de alguém que, por alguma razão, não queremos contrariar. Nesse momento, o riso não está dizendo:

“Isso foi engraçado.”

Está dizendo:

“Nossa relação continua bem.”

De repente, uma coisa banal como rir se transforma em um sofisticado instrumento de comunicação. E fazemos isso praticamente sem pensar. Reclamar também pode aproximar pessoas. Reclamar parece algo essencialmente negativo, mas imagine a cena.

Você entra em uma fila enorme. Não conhece ninguém. Depois de alguns minutos, olha para a pessoa ao lado e comenta:

— Hoje está complicado, hein?

Ela concorda.

Talvez faça outro comentário.

Você responde.

Em menos de um minuto, duas pessoas completamente desconhecidas estabeleceram uma pequena conexão.

O problema continua exatamente igual. A fila não andou um centímetro por causa da conversa.

Mas agora existe algo novo:

vocês estão juntos contra a fila.

É curioso perceber que até uma reclamação pode funcionar como ferramenta de aproximação social.

O mesmo acontece quando reclamamos do calor, da chuva, do trânsito, do atraso, do preço das coisas ou daquela segunda-feira que, inexplicavelmente, insiste em aparecer toda semana.

Reclamar nem sempre resolve o problema.

Mas frequentemente cria cumplicidade.

E por que gostamos tanto de contar histórias?

Talvez poucas coisas sejam tão humanas quanto transformar acontecimentos em narrativas.

Uma pessoa poderia simplesmente dizer:

“Perdi o ônibus.”

Mas dificilmente é isso que acontece.

Ela conta que saiu cinco minutos atrasada porque não encontrou a chave, correu duas quadras, viu o ônibus parado no sinal, acelerou, quase caiu, o motorista aparentemente olhou diretamente para ela e, exatamente quando chegou ao ponto...

o ônibus partiu.

Agora não temos mais uma informação.

Temos uma história.

E histórias possuem algo extraordinário: elas permitem que outras pessoas experimentem mentalmente acontecimentos que não viveram.

Muito antes do cinema, dos livros, dos podcasts, das séries ou das redes sociais, seres humanos já transmitiam experiências contando histórias.

Contamos sobre perigos, conquistas, amores, traições, viagens, medos e acontecimentos engraçados.

E fazemos algo ainda mais curioso.

Às vezes melhoramos um pouquinho a história.

O peixe cresce.

A distância aumenta.

A espera fica maior.

A coincidência se torna mais incrível.

Não necessariamente porque queremos enganar alguém, mas porque descobrimos intuitivamente que uma boa história precisa disputar a atenção de quem escuta.

Milhares de anos depois das primeiras narrativas humanas, continuamos fazendo exatamente isso — só trocamos a fogueira pela tela do celular.

Somos uma espécie que inventa códigos

Pense nos apelidos.

Uma pessoa recebe um nome ao nascer. O nome é registrado, aparece nos documentos e deveria resolver definitivamente a questão de como chamá-la.

Mas nós aparentemente consideramos isso insuficiente.

Encurtamos.

Modificamos.

Duplicamos sílabas.

Inventamos nomes completamente novos.

E, em determinados grupos, quanto maior a intimidade, mais incompreensível para quem está de fora pode se tornar o apelido.

Isso acontece porque apelidos não servem apenas para identificar alguém.

Eles podem indicar pertencimento.

Existe diferença entre o nome que está no documento e o nome que apenas determinadas pessoas têm permissão para usar.

O mesmo vale para inúmeras outras coisas que fazemos.

Criamos símbolos.

Inventamos rituais.

Comemoramos datas.

Estabelecemos gestos.

Desenvolvemos expressões que só nosso grupo entende.

Transformamos objetos em lembranças.

Guardamos coisas que não possuem praticamente nenhum valor financeiro, mas que jamais aceitaríamos jogar fora.

Somos especialistas em colocar significados invisíveis nas coisas.

E também somos contraditórios

Talvez essa seja uma das partes mais divertidas de observar o comportamento humano.

Dizemos:

“Não precisava trazer nada.”

Mas gostamos quando a pessoa traz.

“Não quero fazer nada no meu aniversário.”

Mas percebemos quem esqueceu.

“Depois a gente marca.”

E todos sabemos que existe uma possibilidade razoável de jamais marcarmos.

Perguntamos:

“Tudo bem?”

E, dependendo da situação, esperamos sinceramente que a resposta não ultrapasse duas palavras.

São pequenas mentiras sociais, convenções e códigos que aprendemos sem precisar frequentar uma aula sobre eles.

Ninguém entrega um manual dizendo exatamente quando devemos sorrir, agradecer, disfarçar uma decepção, mudar de assunto, demonstrar interesse ou fingir que não percebemos alguma coisa.

Nós aprendemos observando outros seres humanos.

Talvez sejamos mais parecidos do que nossas diferenças sugerem

Isso não significa que exista um comportamento absolutamente idêntico em todas as pessoas ou culturas. Generalizações sobre comportamento humano exigem cuidado justamente porque contexto, história, personalidade e cultura importam muito.

Mas observar aquilo que se repete é fascinante.

Rimos. Criamos vínculos. Sentimos medo. Contamos histórias. Competimos. Cooperamos. Criamos símbolos. Celebramos. Sentimos ciúme.

Inventamos maneiras de pertencer. E procuramos outras pessoas para compartilhar aquilo que acontece conosco.

Talvez por isso seja tão divertido encontrar alguém completamente diferente de nós fazendo exatamente alguma coisa que fazemos.

Por alguns segundos desaparecem nacionalidade, idade, profissão, idioma e todas as outras categorias que utilizamos para organizar o mundo.

Resta apenas aquela sensação:

“Eu também faço isso.”

Foi justamente dessa curiosidade que nasceu 101 Coisas que Todo Ser Humano Faz, da coleção Códigos Humanos, publicada pela Prisma Livros Digitais.

O livro parte das pequenas ações do cotidiano para observar algo muito maior: os comportamentos, contradições, emoções e códigos que ajudam a contar a história da nossa humanidade em comum.

Porque talvez não seja necessário começar pelas grandes perguntas para compreender melhor quem somos.

Às vezes basta observar algo aparentemente insignificante.

Uma gargalhada. Um apelido. Uma reclamação. Uma história exagerada. Um pouco de ciúme. Uma comemoração.

Ou aquela pequena mentira educada que contamos apenas para tornar a convivência possível.

Pequenas ações podem esconder grandes verdades sobre nós.

E talvez a mais interessante delas seja justamente esta:

somos muito diferentes — mas não tanto quanto imaginamos.

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